Famílias voltam às compras
Com crédito dos bancos e redução de impostos

Embalado pelo incentivo ao consumo, o comércio contribuiu para que o Brasil pudesse superar os efeitos da crise financeira mundial. Medidas tomadas pelo governo a partir do fim de 2008, como a presença dos bancos públicos para garantir o crédito e a redução de impostos, inicialmente para automóveis e depois para eletrodomésticos e material de construção, impulsionaram as vendas. “Houve uma parada no fim de 2008, mas a reação foi rápida”, diz Márcio Torres, gerente de crédito da Serasa Experian. Por estar voltado exclusivamente para o mercado interno, o comércio foi ainda beneficiado pela melhoria da renda e dos índices de emprego.

Os dados do IBGE mostram que Brasil, Austrália, India e China foram os únicos países onde o varejo ampliado (que inclui veículos, motos, autopeças e material de construção) exibiu números positivos no primeiro quadrimestre de 2009. Nos Estados Unidos, a queda foi de 9,1%, enquanto aqui houve um crescimento de 2,5%. Na zona do euro, a redução foi de 1,2%. Cálculos da Serasa Experian mostram que o indicador de investimento do setor (percentual do faturamento em relação aos ativos) retomou a tendência de alta. Alcançou 9,9% em junho de 2009 e está próximo dos 11,4% de setembro de 2008 - maior pico do ano antes da crise.

De 1999 a 2004, o faturamento do comércio vinha acompanhando a curva de crescimento dos outros setores da economia. A partir de 2005, segundo dados da Serasa Experian, houve um descolamento para cima. Já descontada a inflação pelo IGPM, a evolução das receitas do comércio a partir de 1999 acumula 65,1%, até junho de 2009, contra 37,4% dos outros setores. A conta do primeiro semestre de 2009 mostra um placar também positivo: 2,7% contra 6,3% negativos.

Para Márcio Torres, outro fator que impulsiona o setor é a menor dependência do crédito bancário. “O grande financiador do comércio não é o banco, mas os próprios fornecedores — o chamado crédito mercantil”, explica. O endividamento bancário do setor, calculado em porcentagem sobre o patrimônio líquido das empresas, cravou 62% em 2008 e 64% em junho de 2009. Já o endividamento com os fornecedores ficou em 176% em 2008 e em 171% em junho de 2009. Na opinião de Marcos Gouvêa de Souza, diretor geral da consultoria GS&MD, nos últimos cinco anos o comércio varejista vem colhendo os frutos da estabilização da economia. “Com o fim da espiral inflacionária, as empresas puderam olhar para o longo prazo e realizar investimentos em modernização e na reestruturação dos negócios para ganhar competitividade”, diz.

Momentos como este, segundo o consultor, fazem acelerar mudanças estruturais importantes. Uma delas é a maior formalização do setor. O varejo brasileiro formal representa, segundo ele, 15% do PIB, enquanto na Espanha equivale a 33%, no Reino Unido a 32,9% e na França a 30,5%. “Não é surpresa se alcançarmos o patamar de 20% na próxima década”, afirma. Para Gouvêa, o amadurecimento e a profissionalização do mercado brasileiro devem abrir espaço para um movimento maior de fusões e aquisições.

Apesar da presença de grandes players no mercado, os principais segmentos do comércio ainda apresentam baixo grau de concentração, segundo estudo da GS&MD. Na área de material de construção, em que a presença estrangeira é alta, os cinco maiores ocupam apenas 10% do mercado. No segmento de vestuário e calçados, com maior presença de nacionais, a participação dos cinco maiores é de 20%. A grande concentração e o maior grau de internacionalização estão no segmento de supermercados, em que o market share dos cinco maiores é de 51,7%.

Os segmentos de lojas de conveniência e comércio eletrônico, com pequena participação no bolo total de vendas, são os mais concentrados — 56,5% e 87,9% respectivamente, também considerados os cinco maiores. O comércio eletrônico, com cerca de 2% de market share, é o que mais cresce e atrai novos investidores, além de exercer grande influência no comportamento dos consumidores. “Hoje, mesmo quem sai para comprar pesquisa antes na internet, compara preços e produtos”, explica Gouvêa de Souza. Em sua opinião, o maior grau de urbanização do país é outro fator de mudança, para o qual as empresas estão cada vez mais atentas.

A movimentação dos grupos em 2008 indicou uma forte tendência de buscar sinergias nos negócios para aumentar a competitividade e fortalecer o posicionamento no mercado. É o caso do Pão de Açúcar com a incorporação das Casas Bahia, líder no varejo de eletroeletrônicos, anunciada nos primeiros dias de dezembro de 2009, mediante troca de ações. O grupo terá 51% do novo negócio e, segundo seus próprios cálculos, conseguirá uma sinergia de pelo menos R$ 2 bilhões.

Em junho, já havia desembolsado R$ 824,5 milhões na aquisição da então vice-líder do ramo, a Ponto Frio, quando consolidou a posição de maior grupo varejista do país. Os ganhos de sinergia, nesse caso, foram estimados em R$ 1 bilhão. No ramo eletroeletrônico, o grupo passará a ter uma receita da ordem de R$ 18 bilhões, com 1.053 lojas e 68 mil funcionários.

Outra aquisição importante, ocorrida em 2008, foi a compra da livraria Siciliano pela concorrente Saraiva, que agora se tornou a número 1 do país. Depois de um ano de negociações, o negócio foi fechado por R$ 60 milhões. O mercado estima que o grupo passou a responder por cerca de 20% das vendas de livros no país. A Saraiva elevou para 90 o número de lojas e passou a atuar em cinco Estados, onde antes não estava presente. Com esse negócio, a Saraiva ingressou no grupo dos 20 maiores em patrimônio liquido do setor de comércio e subiu da 193ª posição para a 175ª posição no ranking dos 200 maiores da edição de Valor Grandes Grupos.

A Saraiva também pulou da quinta para a segunda posição entre os 20 que mais cresceram por receita bruta. Em primeiro lugar ficou o grupo André Maggi, um dos gigantes do mercado de grãos, desbancando o Ultra, que, entretanto, permanece liderando o ranking dos maiores do comércio, com uma receita de R$ 29,5 bilhões.

Este ano, o grupo de Mato Grosso acertou a compra de 51% das ações da norueguesa Denofa, cuja atividade principal é o esmagamento de soja, e anunciou a criação de uma joint venture com a multinacional francesa Louis Dreyfus Commodities para explorar o mercado de grãos na nova fronteira agrícola brasileira, formada pelos Estados da Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins. A joint venture deverá faturar R$ 700 milhões e movimentar 1 milhão de toneladas de soja e milho em cinco anos destinados ao mercado externo.

Os números do IBGE mostram que os segmentos de hipermercados e supermercados foram os menos afetados pelo abalo da crise financeira do fim de 2008 em relação aos outros segmentos do comércio. A pesquisa sobre o terceiro trimestre de 2009 mostra que as vendas globais do comércio varejista cresceram 5,3%—quase metade dos 10,2% registrados no mesmo período de 2008. 0 segmento de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, por sua vez, registrou uma expansão de 9,4%, na comparação com igual período em 2008. No segundo trimestre, a alta havia chegado a 9,6%, na mesma relação. O segmento já começara o ano com resultado acima da média. Segundo o IBGE, o volume de vendas cresceu 7% em janeiro comparado a dezembro de 2008.

O motivo foi o aumento de 8,3% da massa de salários sobre janeiro de 2008, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego. Para os economistas do IBGE, responsáveis pelo estudo, embora haja grande probabilidade de o desempenho global das vendas do comércio em 2009 ficar abaixo dos 9,1% de 2008, a expansão será robusta. Os setores que ainda não tinham deslanchado em 2009 são os de vestuário, cujas vendas no terceiro trimestre caíram 4,8%, e de material de construção, que registrou uma queda de 9%. Em novembro, o governo anunciou a redução para zero do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para vários tipos de móvel e prorrogou a desoneração de impostos para material de construção, que acabaria no fim do ano.

Na avaliação do Ministério da Fazenda, a prorrogação do prazo se justifica pelo ciclo mais longo de compra, uma vez que o material é adquirido ao longo da reforma ou construção. A medida vai vigorar até junho de 2010.

Enquanto os efeitos das providências oficiais tomadas a partir do fim de 2008 não eram sentidas, os grupos comerciais classificados por Valor Grandes Grupos registraram naquele ano crescimento de receita de 19% e uma rentabilidade de 7,6% — queda em relação aos 11,4% de 2007.

Valor Grandes Grupos – Comércio - 12/2009 – Pág. 35 e 36