Varejo brilha, mas a demanda rateia
O saco de bondades do governo.
O saco de bondades do governo brasileiro para conter os efeitos da crise internacional sobre a economia não tem limites. Os estímulos vão do setor financeiro ao automobilístico, passando pela construção civil.
Primeiro foram as medidas para aumentar a liquidez dos bancos menores e também facilitar a compra de suas carteiras de crédito por outras instituições financeiras. Depois foi a isenção por três meses, que recentemente foi prorrogada por mais três meses, do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na compra de carros populares novos.Em seguida veio o ambicioso pacote habitacional para a construção de 1 milhão de casas populares. Agora, o que se espera é que haja uma mãozinha também para o segmento de varejo, que vem sofrendo com as mazelas da desaceleração econômica. O Ministério da Fazenda estuda a redução do IPI para eletrodomésticos e para a cadeia de produtos alimentares,
incluindo até os frigoríficos.
O mercado passou a comentar sobre possibilidade de implementação dessa medida na semana passada e as ações de varejo refletiram imediatamente a expectativa dessa boa nova. Alguns papéis tiveram
valorizações acentuadas nos últimos dois pregões antes do feriado de Páscoa, na sexta-feira. As ações ordinárias (ON, com direito a voto) da B2W, por exemplo, subiram nada menos que 16,96%, as
preferenciais (PN, sem direito a voto) da Lojas Americanas se valorizaram 12,77% no mesmo período, as ON da Lojas Renner tiveram alta de 8,59%, enquanto o Índice Bovespa subiu apenas 3,91%. (ver gráfico abaixo).Para se ter ideia de como essa expectativa animou os investidores, os nove principais papéis que representam os setores de varejo e consumo na Bovespa tiveram desempenhos superiores ao Ibovespanos últimos dois pregões. As ações ON da Globex (leia-se Ponto Frio) foram as que mais subiram,18,63%. No entanto, essa alta se deve muito mais ao fato da atual controladora, a bilionária Lily Safra,estar à procura de um comprador para sua participação na companhia.
É inegável que foi a possibilidade de redução do IPI que melhorou as perspectivas para as varejistas. No entanto, a valorização das ações só foi possível graças ao humor do mercado de uma forma geral, que Página 3 vem melhorando gradativamente nas últimas semanas. "Se o tom do mercado continuasse ruim, como estava nos últimos meses por causa da crise, dificilmente essa ideia de redução do IPI teria causado algum efeito sobre as ações; o humor da bolsa neste momento é mais importante do que fatores específicos setoriais", diz o analista da Fator Corretora Renato Prado.
Mesmo com a recente valorização, os papéis de varejo ainda acumulam desempenhos sofríveis considerando um prazo mais longo. Em 12 meses, por exemplo, as ON da B2W caem 54,89%, as PN da
Lojas Americanas se desvalorizam 35,46% e as ON da Lojas Renner, 47,05%, ante uma queda de 28,26% do Ibovespa no mesmo período. Esses papéis não caíram dessa forma à toa. Com a
desaceleração econômica, o nível de consumo das pessoas cai de forma significativa, principalmente em produtos que não são de primeira necessidade, como eletrodomésticos e os eletroeletrônicos.
Fundamento frágil.
A redução de IPI para o varejo, se de fato ocorrer, será uma notícia positiva entre muitas negativas, que fizeram com que os fundamentos do setor ficassem bastante frágeis. "Esse é um dos setores que mais dependem das premissas macroeconômicas, que ainda são ruins; o crédito continua escasso, a massa salarial e o nível de emprego estão em queda e a demanda por produtos que não são de primeira
necessidade rateia", diz Prado, da Fator Corretora. A queda da atividade econômica atingiu de formas diferentes os diversos segmentos que fazem parte do setor de consumo.
As empresas que dependem mais de crédito, como as de vestuário, calçados, aluguel de carros e as de comércio eletrônico, são as que mais sofreram até agora, lembra Prado. A B2W e a Localiza são dois exemplos de como o consumo se retraiu juntamente com a economia. No caso da B2W, a velocidade de crescimento do seu faturamento de um trimestre ante o mesmo período do ano anterior caiu de um intervalo entre 35% e 40% para cerca de 15% no último trimestre do ano passado, lembra Prado. Já na
Localiza, o aluguel de veículos caiu de forma expressiva, afirma o analista. Assim como esses setores foram os mais atingidos pela crise, também devem ser os primeiros a se beneficiar das retomadas da economia e do crédito. Na ponta contrária, os supermercados e as empresas de alimentos conseguiram se segurar melhor, na medida do possível. Entre elas estão: Pão de Açúcar, Perdigão e Sadia, esta última, no entanto, muito prejudicada pelas perdas bilionárias com operações de derivativos cambiais.
Valor Econômico – De olho na bolsa – 13/04/2009 – Pág. D2
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